quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sobre a crônica do furto do celular


“Nesse hospício que é o próprio mundo, onde todos, sem exceção estão internados por qualquer lapso de loucura cometido em determinado momento durante a vida, em guerrilhas com causa ou sem causa, nunca estamos fora do alvo da troca de tiros, em especial dos "tiros de letra", atuando, ora como guerrilheiros, ora como vítimas desses guerrilheiros. Ninguém em sã consciência tem a capacidade e a certeza absoluta de estabelecer o limite entre o que é normal ou o que é loucura, porque as próprias razões da mente humana ultrapassam a própria compreensão do universo ilimitado do que vai na mente de cada um. Para cada cabeça, uma sentença e para cada pescoço,uma corda!

Felizmente, quem tem um mínimo de discernimento sabe estabelecer o limite das próprias palavras ou atitudes. Parabéns pelo seu texto!

Sirley Vieira Alves, de Goiânia, Goiás – 48 anos, pedagoga, artesã e poeta.

Erty, mora na Alemanha, tem 22 anos e mandou dizer que gostou da crônica/conto.

Caroline Esteves, deve ser estudante: “Estou pegando sua crônica para o meu trabalho de Português”.

Cena real no ônibus do bairro dos Novais


Amiga minha viajava no coletivo que faz a linha do bairro dos Novais, em João Pessoa. Levava a filha de 10 anos. Vestidos de funqueiros, entraram dois moleques no ônibus com poucos passageiros àquela hora, duas da tarde. Depois de alguns minutos, a moça gritou:

-- Roubaram meu celular e foi esse cara – apontando para o rapaz com cara de punguista.

-- Qual é, madame! Tou com seu celular não, só com o meu.

A mulher avançou para o sujeito e meteu a mão nos seus bolsos. Os outros passageiros fingiam não ver a cena, quase em pânico. Um dos rapazes passou para a frente do ônibus. O outro, desconcertado, tentava se livrar da ira da moça.

-- Liguem para meu celular! – gritou ela para os passageiros.

Os homens e mulheres foram sucumbindo à onda dolorosa do terror.

-- Ninguém aqui tem coragem não? Liguem a cobrar para meu telefone.

Foi aí que uma senhora, trêmula, tirou o seu celular da bolsa e começou a discar o número gritado pela estouvada passageira. O toque do móvel se virou contra o maluco do funk que tratou de correr para a porta de saída. O motorista parou, quase também perdendo o controle. O celular da passageira estava debaixo de uma poltrona, jogado pelo rapaz. Aos poucos, a moça foi se acalmando. Pegou na mão da filha e desceu, sob os olhares espantados dos demais passageiros.

Ela contou isso para um amigo comum, que me passou a história. “A fúria tem vida própria”, filosofou depois. Nunca pensou em resistir a uma arremetida de bandidos. A reação súbita e violenta assombrou a própria protagonista do acontecimento. “Criei coragem em segundos, e vi aparecer em mim uma pessoa que eu desconhecia. Fiquei aterrorizada depois, mas no momento obedeci às ordens dos meus instintos mais primitivos”, acredita.

Agora, vive apavorada com medo de dar de cara com os rapazes. A comunidade onde mora é muito insegura. É mais uma que defende chacina urgente para rapazes pobres da periferia, seus próprios vizinhos. Ela e eles são partes das entranhas de uma sociedade apodrecida. O Mal Absoluto, com suas raízes históricas e sociais, arranca de dentro das pessoas as mais tenebrosas forças biológicas que levam uma simples dona-de-casa a se transformar em guerrilheira suburbana e suicida em uma batalha já perdida contra seus iguais.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

O almoço de pai foi na praia do Poço



No Bar do Onaldo, foi servido peixada e outros frutos do mar para a família Costa, comemorando os 81 anos do patriarca Arnaud Costa. Esposa, filhos, noras, netos e bisnetos foram abraçar o Mestre Maçom, jornalista, funcionário público, tribuno, escritor, cultor do Direito, patrono dos esportes, profissional da radiodifusão e muito versado na arte da convivência.

Meu pai já foi vereador, secretário de prefeitura, dirigente de futebol, advogado sem diploma, gerente de trânsito, escritor, animador de escola de samba, comentarista esportivo, locutor de programa saudosista, motorista, bodegueiro e gráfico. Hoje aposentado, vê os parentes se desdobrando em pequenas manifestações como esta apenas para demonstrar nosso afeto, consideração e grande estima, na qualidade de referência maior de nossas vidas.

Muita saúde e felicidade ao aniversariante de hoje.

Almoço de aniversário


Vou alí em restaurante na beira da praia almoçar com meu pai Arnaud Costa, que completa 81 anos hoje (29 de setembro) e volto já com as fotos do acepipe, um pitéu de caranguejo com molho de pimenta, numa reunião familiar para celebrar o niver desse guerreiro.

O bufê será pago pelos filhotes: eu, Vasti, Arnaud Filho, Lavoisier e Sosthenes (este último paga com abatimento porque é vegetariano e abstêmio).

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Vereador vende mandato e registra transação em cartório


Pense num moído cachorro das moléstias está causando o agora ex-vereador do município de Prata/PB, José Erinaldo de Sousa, conhecido por ‘Bobô’. Ele revelou em uma declaração registrada em cartório, que vendeu seu mandato de vereador ao primeiro suplente, Israel Simões de Araújo, pelo valor de R$ 35 mil.

O mais interessante de tudo isso, é que o vereador vendido não sabe lê, pois é analfabeto. Ele teria assinado o documento a mando do suplente de vereador Naldinho Batista, que entrou com uma ação denunciando o fato e querendo cassar o mandato do primeiro suplente para assumir a vaga. Tentamos localizar José Erinaldo, mas o parlamentar não foi localizado.

“Declaro para os devidos fins de direitos a quem interessar possa, especialmente para fazer prova a Justiça da Comarca da Prata, Estado da Paraíba, que recebi do senhor Ismael Simões de Araújo, brasileiro, casado, Vereador do município de Prata – PB, a importância de R$ 35.000,00 (Trinta e Cinco Mil Reais) referente ao pagamento da venda do meu mandato de vereador conquistado em outubro de 2008 pelo Partido Republicano Progressista – PRP que integrou a Coligação Prata no Rumo Certo com outras agremiações políticas”.

Do blog

www.blogdopedromarinho.blogspot.com

Acho que o pobre do vereador realmente é analfabeto, mas o cara que o induziu a assinar o documento é quem deveria ser processado. Está clara a armação do tal Naldinho Batista. Ninguém assinaria um documento desse tipo, assumindo a prevaricação.

Mas a pergunta que rola no Brasil é: seria Tiririca analfabeto?

COMO É BOM FALAR DE JESSIER QUIRINO!


W. J. Solha

Aqui na Paraíba há dois cabras que não hesito em chamar de gênios: Oliveira de Panelas – pelo vozeirão e o improviso, mais Jessier Quirino – de que falo agora - pelo verso escrito, verve em palco... e riso. Daí o enorme sucesso dos shows desse filho de Campina Grande, radicado em Itabaiana – e de seus livros casados com CDs, permitindo-nos mandar para amigos e parentes distantes amostras vivas de sua versatilidade, com direito a replays de seu talento histriônico, além de leituras e releituras de suas estrofes magistrais.

Claro que vê-lo é ainda mais incrível, pela transformação – apenas com a voz e a expressão corporal – que esse arquiteto alvo e de cavanhaque nobre sofre em cena, passando de repente a matuto ingênuo ou muito sabido, muito velho ou muito dotô.
Mas Jessier também é dono de uma prosa extremamente expressiva. Em seu “Berro Novo” há um texto e uma apresentação que fatalmente irão comparecer, daqui por diante, em antologias em que figure o também paraibano Ariano Suassuna: “Pobrema Cardíuco”. Caramba, fazia muito tempo que eu não ria tanto e, ao mesmo tempo, não reverenciava tanto a um criador!!! Ge-ni-al!!!

Como poeta, Jessier tem achados notáveis. Por exemplo:

“Louco era se eu quisesse, por fina força,
engordar uma bicicleta!
Louco é o açougueiro que,
na frente de todo mundo, corta os pulsos do filé!”

Veja sua saudação a Zé da Luz: Perfeita.

“Teje num céu de primeira.”

Suas comparações, quase sempre retiradas de seu próprio universo, mostram uma capacidade associativa fabulosa. Cito dois exemplos:

“Ficou tremendo que só Toyota em ponto morto.”
“Faceiro que só mosca em tampa de xarope.”

Veja esta estrofe, detalhe por detalhe:

“De morreres de amores tu fingiste,
Meu juízo pacífico alopraste,
Meu castelo de sonhos tu ruíste,
Meu chuvisco sereno trovoaste,
Meus colchetes do peito tu abriste,
E os passeios venosos, pressionaste,
Se os meus doze por oito tu subiste,
Minhas fibras cardíacas enfartaste.”

“Bandeira Nordestina” e “Berro Novo”. São dos livros-e-CDs que vão matar você de rir... e de orgulho de ser paraibano.

(W.J.Solha é artista plástico, escritor e ator paulista radicado na Paraíba)

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Minha fubica em boas mãos. (Ou: técnico perna-de-pau)


Meu automóvel gasto pelo uso entrou hoje na UTI da oficina do meu considerado amigo Jason, o velho “Zé Serra” de Mari. O Gol velho de guerra vai precisar de reparos na válvula de retentor, descarbonização, limpeza de bicos injetores, recauchutagem da parte de amortecedores e troca de rolamentos nas rodas.

Jason foi o técnico do meu time “Associação Atlética do Canteiro”, campeão municipal em 1997. Para ser campeão, tive que investir no timeco. Vendi até um Chevette velho para reforçar a equipe. Besteirinha de um apaixonado por este esporte. Tem gente que só gosta de futebol de 4 em 4 anos. Eu gosto diariamente. Não perco jogo na TV ou pelada de campinho de várzea.

Galvão Bueno é que me dá asco, mas às vezes sou obrigado a aturar o “mala sem alça” só para assistir a uma partida de futebol transmitida com exclusividade pela Globo, o que não passa de mais uma sacanagem dessa rede de TV. Acompanho o jogo sem som.

Mas do que quero falar mesmo é de Jason, um técnico de futebol aloprado. Pra começar, não entende nada de tática. “Como vamos montar o time?” E Jason: “Bota esses macacos pra jogar e quem não suar a camisa volta pra casa a pé, sem direito a laranja. E esse negócio de 3x4 e 4x3 é frescura. O time vai fechado, com os volantes folgados, arrecua os beques, solta a linha de quatro e mete a linha de oito pra riba deles, e se for preciso manda Toinho Gambá e Fura Fuba peidar na frente do juiz que é pra ele ficar tonto e afrouxar a macaca pra riba de nós”.

No intervalo, Jason reunia o elenco e ameaçava: “se continuar com esse joguinho de merda, vou tirar os bons e botar os ruins”. Os “ruins” eram os pobres dos reservas. Nosso goleiro era meu compadre Severino Batista, que além de ser baixinho, sofria de deficiência visual. Só enxergava a bola a dois metros de distância. Jason ficava atrás da trave, orientando nosso goleiro míope. Para ganhar o campeonato, tive que exportar os melhores atletas de Itabaiana junto com o técnico, meu companheiro Trajano, ferroviário e também fanático por futebol. Jason ficou ressentido por ter sido rebaixado à condição de auxiliar técnico e abandonou o Canteiro.

Antes, me jogou na cara uma frase da porra, que até hoje lembro. Foi no primeiro jogo com o técnico e time novo. A partida terminou empatada em zero a zero com o Brasil de seu Antonio Benedito. Ao sair do campo, Jason escarneceu do técnico e dos novos atletas: “Melhor seria se eu estivesse em minha oficina. O dia em que não se aprende nada é dia perdido”.

Cosme e Damião, protejam o idoso e o encanador! (além das crianças)


Hoje é Dia Nacional do Idoso, dia do encanador e de São Cosme e Damião.

Pesquisando na net, fico sabendo que Cosme e Damião na verdade se chamavam Acta e Passio, eram árabes, dois irmãos gêmeos bons e caridosos, precursores da série de filmes “Difícil de Matar”. Foram amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria e inimigos dos deuses romanos, mas conseguiram se salvar. Na segunda tentativa de morte, foram afogados, mas salvos por anjos. Na terceira, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na quarta vez, as pedras voltaram para trás, sem atingi-los. Por fim, morreram entalados em um tubo subterrâneo. Entraram pelo cano, por isso hoje também é dia do encanador.

Depois de mortos, apareceram materializados ajudando crianças que sofriam violências. Ao gêmeo Acta é atribuído o milagre da levitação e ao gêmeo Passio a tranquilidade da aceitação do seu martírio. A partir do século V os milagres de cura atribuídos aos gêmeos fizeram com que passassem a ser considerados médicos, pois, quando em vida, exerciam a medicina na Síria, em Egéia e Ásia Menor, sem receber qualquer pagamento. Por isso, eram chamados de anargiros, ou seja, inimigos do dinheiro. Mais tarde, foram escolhidos patronos dos cirurgiões.

No dia 27 de setembro, quando é realizada a festa aos santos gêmeos, as igrejas e os templos das religiões afro-brasileiras são enfeitados com bandeirolas e alegres desenhos.

No candomblé, são associados aos "ibejis", gêmeos amigos das crianças que teriam a capacidade de agilizar qualquer pedido que lhes fosse feito em troca de doces e guloseimas. O nome Cosme significa "o enfeitado" e Damião, "o popular".

Padroados: Farmacêuticos; faculdades de Medicina; barbeiros e cabeleireiros.

Protege: Orfanatos; creches; doceiras; filhos em casa; contra hérnia e contra a peste.

Emblema: caixa com unguentos, frasco de remédios, folha de palmeira.

Pesquisa: Terra Esotérico

Por fim, uma frase sobre idosos, da irmã Maria de Lourdes Micaldas:

"Quanto mais antiga a árvore, melhor a sua sombra e maior a sua proteção".

domingo, 26 de setembro de 2010

Sindicato dos ferroviários homenageia maquinista morto


Foi hoje, domingo (26), a inauguração do espaço de eventos e lazer do Sindicato dos Ferroviários da Paraíba, entidade que ajudei a fundar em 1983. A sala recebeu o nome de Adjalmir, meu companheiro de trabalho que faleceu no ano passado.

Estive no Sindicato para abraçar velhos amigos, entre eles o compadre Cleofas, Presidente do Sindicato, que está comigo na foto, ao lado do banner que homenageia Adjalmir, nosso amigo comum.

Enfraquecidos e desestruturados, os sindicatos ferroviários estão entre as principais vítimas da política de transporte do Governo, desde FHC. Com a privatização da rede ferroviária, ficamos sem quadros. Nosso sindicato tem seu número de associados cada vez mais reduzido, e haverá muito menos daqui pra frente.
Abalado pela privatização e pela crise do setor ferroviário, o Sindicato vive de teimoso. Mas ainda tem forças para organizar uma sala para receber os companheiros em suas horas de folga, lembrando o nome do meu amigo Adjalmir.

Parabéns ao companheiro Cleofas e sua diretoria, os que ainda têm coragem de se organizar coletivamente, apesar de se tratar de um sindicato quase sem base nenhuma. Perdemos arrecadação, perdemos poder de articulação e consequentemente perdeu a categoria sua referência diante do pensamento neoliberal que tomou conta do país, principalmente a partir dos anos 90.

Isso dá grande insegurança ao trabalhador. Ferroviário hoje é uma classe em extinção. Nossa categoria atualmente está distante de uma postura politizada.

sábado, 25 de setembro de 2010

Pra não ficar vendo a banda passar...


Kiko Almeida é músico, toca saxofone tenor, aprendeu com o maestro Zezé de Itabaiana. Ele lastima que, “infelizmente, as condições de se trabalhar e de se aprender música são precárias na terra de Daciano Alves de Lima, por falta de apoio do poder maior da cidade. Espero que um dia eu possa tocar e ver a banda ‘Nova Euterpe’ como era antes.”

Meu caro Kiko, o poder maior de toda cidade é sua população. Os gestores são transitórios. Não perca a faculdade de se indignar, mas de vez em quando é bom ser privado de bom senso para fazer acontecer. Continue tocando seu sax e vez por outra siga a orientação que recomenda: “faça você mesmo”. Se não tem escola de música, faz como a Sociedade Amigos da Rainha: cria uma e bota a molecada pra aprender, com apoio do Ministério da Cultura. Se não tem banda, vamos formar a nossa orquestra com o que se tem, ou reforçar a “Nova Euterpe”.

Aprendi que temos que fazer o que tem que ser feito, mesmo sem esperar pelo cumprimento da legislação e pelas soluções do poder público. Na cidade de Mari, um grupo de cidadãos resolveu que a comunidade deveria ter sua voz, e criamos a rádio comunitária. Depois de muita luta, ganhamos a licença do Ministério das Comunicações e a rádio está lá, servindo à comunidade daquele simpático município paraibano. Se fosse esperar pelas tais instâncias oficiais, o projeto estaria na estaca zero até hoje.

Itabaiana foi onde nasceram dois cabras geniais e hoje muito famosos: Sivuca e o saxofonista Ratinho, que assinava Severino Rangel, autor do clássico “Saxofone por que choras”. Um e outro tiveram que sair de sua terra para buscar a fama no Recife e depois no sudeste, mas começaram na banda de música local, tocando em piqueniques e festas populares, nos pastoris e bailes, fazendo trilha sonora para comícios e outras manifestações coletivas. Sivuca tocou nos Taiobas, tradicional clube carnavalesco itabaianense, e Ratinho tocava nas ruas, na folia sem cordão de isolamento onde predominavam os ritmos pernambucanos.

Itabaiana vem nesse caminho de revelar grandes músicos, dignificando o nome de nossa terra. E isso se deve muito às orquestras, que jamais devem morrer. É uma pena que atualmente a “Nova Euterpe” esteja pouco valorizada, mas a arte é poderosa. Qualquer hora se revitaliza, fazendo improvisações inusitadas como um jazz do agreste, percorrendo as variantes da história. Quem viver verá e ouvirá.

Maria Soledade canta a luta da mulher comunicadora comunitária


Maria Soledade é uma poeta repentista paraibana, conhecida em toda ribeira pela desenvoltura com que maneja a viola e o verso improvisado. Menina ainda, antes mesmo de aprender a ler, Soledade já fazia versos, ouvindo os violeiros que se apresentavam no sítio Genipapo onde morava, em Alagoa Grande. Das incursões dos poetas violeiros por aqueles rincões, ficaram as melhores lembranças de sua meninice e a aspiração de seguir a carreira de cantadeira e poeta popular.

Naturalmente, a moça que queria ser poeta repentista não encontrou vida fácil no mundo masculino da cantoria. À medida em que crescia e abria os olhos para o mundo, entretanto, mais Soledade sabia que aquele era seu destino, seu emprego e direção. Encontrou em Minervina uma parelha para seu mister. Até hoje as duas mulheres repentistas brilham em festivais e cantorias de pé-de-parede por este Nordeste afora.

Soledade já duplou com Manoel Valentim, Beija Flor, Otílio Soares, Maria Lindalva e Minervina, com quem canta há vinte anos. Com Mocinha de Passira viajou o Brasil na Caravana “Pé na Estrada”, com 62 cantadores levando o tema “saúde e reforma agrária” em 1986.

Ontem, 24 de setembro, Maria Soledade foi cantar no lançamento do livro “Peste e Cobiça”, de Tião Lucena, no Sebo Cultural. A poeta foi convidada pelo projeto “Feminino Plural” para filmagem de sua exibição destinada ao documentário que estamos produzindo. Foi show de bola, tanto o lançamento da obra de Tião quanto a cantoria de Maria Soledade.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Sentenças de almanaque


Estou lendo um livro raro, com mais de duzentos anos. Trata-se do Lunário Perpétuo, de Jeronymo Cortez. Este livro foi a Bíblia dos antigos escrevinhadores de almanaques, que são aquelas publicações destinadas ao homem do campo, contendo calendário, datas comemorativas, fases da lua, matérias científicas e recreativas, remédios populares, além de prognósticos da vida do sujeito conforme a data do nascimento. Essas informações fizeram a festa dos candidatos a astrólogos iguais a Madame Preciosa. A primeira edição do livro data de 1703, feita pela casa de Miguel Menescal, em Lisboa. Hoje o Lunário é uma preciosidade só encontrada nas bibliotecas dos estudiosos ou bibliófilos, mas é reeditado continuamente pela Editora Lello em Portugal. Durante cerca de duzentos anos, esse livro foi o mais lido no Nordeste Brasileiro, depois da Bíblia Sagrada. Tratava-se também da fonte onde iam beber conhecimento os poetas repentistas.

No começo do livro, o autor explica o que é o universo e seus elementos. Informa que o mundo foi criado no mês de setembro pelo simples fato de que Adão e Eva comeram a maçã madura, e a época da maturação da fruta é justamente no equinócio outonal. Jesus morreu na primavera, conforme o autor, na sexta-feira e na hora sexta, no décimo quinto dia da lua de março. Seguindo essa lógica cabalística, Jeronymo Cortez afirma que, do princípio do mundo até o nascimento de Cristo passaram-se 4.004 anos. É só acrescentar 2010 e teremos a idade exata do universo: 6.014 anos.


Consultando a tabela das idades do homem, fico sabendo que estou no final da idade da Virilidade que vai dos 40 aos 55 anos. A partir de outubro, entrarei na idade da Senectude ou Velhice, que vai dos 55 até o fim da vida. Essa fase pode se chamar também de Decrepitude.

Na parte dos horóscopos, descubro onde minha vidente Madame Preciosa foi encontrar detalhes do meu caráter a partir do signo de Escorpião. Conforme o Lunário Perpétuo, o homem nascido nessa época “é filho do Outono, com suas intemperanças e más influências”. Portanto, quem nasce debaixo desse signo “será de maus costumes, enganador, luxurioso e teimoso; pouco liso nos seus negócios e inclinado a furtar; e que será grave, amigável e de boas palavras, porém falsas; e finalmente andará por diversas terras, não será nem rico nem pobre, terá algumas enfermidades e morrerá aos setenta e um anos de vida”. Entretanto, se for do sexo feminino, será amigável, forte e terrível, mas viverá somente um ano a mais do que o Escorpião macho.

O livro apresenta uma lista biográfica dos papas da Igreja Católica, sempre atualizada, de São Pedro ao João Paulo II. Entre esses chefes da Igreja, destaca-se um tal de Vicente Joaquim Pecci, conhecido por Leão XIII. Releva-se, ao meu ver, pela contradição política e social do seu pontificado, que vai de 1878 a 1903, ano de sua morte. Inimigo feroz da Maçonaria, João XIII encorajou os católicos sociais, lançando em 15 de maio de 1891 a Encíclica Rerum Novarum, afirmando limites com relação ao direito de propriedade, defendendo a dignidade do operário e sua prerrogativa de se organizar em associações corporativas. No entanto, em 1888, lançou a Encíclica In Plurimis, contra a abolição da escravatura. Lembrando que foi neste ano que, no Brasil, a Princesa Isabel assinou a lei Áurea, extinguindo a escravidão no país.

De volta à barraca do Ponei


Já está virando mania: percorrendo Itabaiana, invariavelmente passo na barraca do Ponei, onde era a Praça 24 de Maio e agora é uma praça de abastecimento de pinguço. Impossível você transitar por trás da igreja matriz sem ser chamado por um biriteiro instalado naquelas barracas. Sentou na mesa, tem que rezar. Ali é o point de pessoas de alto nível, a exemplo do poeta Orlando Otávio e do professor Luiz Paraíba. Quando vem a Itabaiana, vindo de Paulista no Pernambuco, o outro poeta Eliel José logo se acomoda na barraca do Ponei para tomar Pitu com fava e carne assada.

Na foto acima, estou na companhia do músico Vital Alves, um cara com a camisa do Barcelona, Ponei, Jurandir do Banco do Brasil e Walter da Rua da Tatajuba.

Ponei foi um grande atleta do Vila Nova Futebol Clube. Hoje, é vendedor e consumidor de cerveja. Aconselha a ingestão da bebida inclusive para atletas. Além de matar a sede e relaxar, a cerveja ajuda na recuperação após a prática esportiva, conforme ele anuncia como sendo uma informação do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha, que apresentou um estudo defendendo o consumo moderado da cerveja para os atletas como fonte de hidratação diária. Embora eu suponha que isso é uma desculpa e uma forma de fazer reclame dessa bebida. De toda forma, meu cardiologista Ponei recomenda e a gente toma metro e meio de cerveja, conversando sobre o passado que é a melhor distração de velho.

Bem vinda, Sheilla Liz


Sheilla Liz é artista plástica de Curitiba. Sheilla, preciso lhe dizer que é uma honra ter você como minha seguidora.

Sigam-me os bons, dizia o artista da pilhéria insossa da televisão, aquele que se vestia de anti-herói, o Tiririca do México. Por falar em Tiririca, vocês já viram a polêmica sobre a candidatura do carinha? O anti-candidato deverá ser escolhido por mais de um milhão de eleitores. Tiririca, com aquela cara de ameba, tem mais cara de eleitor do que de candidato.

Mas voltando a Sheilla, minha nova seguidora da Toca do Leão. Por que seguimos um blog? Valdecy Alves, seguidor de blogs e Twitter, explica: “nos tempos atuais, ao seguirmos um blog ou sermos seguidos, formamos uma verdadeira teia, capaz de ter um alcance quantitativo e qualitativo para matérias formativas e informativas, que mídia alguma consegue ter. Já imaginou se os pré-sócrates e pós socráticos tivessem tal meio divulgador na sua época? A história seria outra!”

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Ameba megalomaníaca


Tenho um amigo que atende pelo nome de Ameba. O sujeito é alto e magro, parecido com o dono do cachorro Scoobydoo. “Por que te chamam de Ameba?” É por causa do biotipo. Determinou-se que o protozoário é fino e sem nenhuma noção. Falta cérebro. É menos importante do que uma larva de inseto.

Li na net blog de uma senhora portuguesa que assina CEXY, mora em Amadora, casada, tem como filme favorito “O ódio” e gosta de quase todos os estilos de música, menos étnicas. Vejam um post racista da portuga:

"É por isto que este Pais não vai para frente"

gritava o português de meia idade, vestindo a calça azul clara de ganga comprada a 5 euros na banca de roupa contrafeita, a t-shirt branca oferecida pela casa de pneus "Zé Manel e Cajo", ao lado da sua esposa emigrante brasileira. Ja estava há espera há pelo menos 10 minutos.Vergonhaça pá. "Isto parece o 3º Mundo" - continuava ele, e com muita razão. Deviamos era ir todos para o Brasil, esse exemplo de desenvolvimento, legalidade, igualdade, justiça social e onde todos os serviços ao publico serão com certeza realizados em menos de 2.3 minutos (que é o máximo aceite pelo governo). Detesto gente parva.


Parvo é o sujeito pequeno, limitado. Uma ameba, por exemplo.

Talvez não passemos de amebas megalomaníacas tentando sobreviver em um abissal universo que liga para nós tanto quanto nós ligamos para os vírus e bactérias que expelimos em nossos espirros. Pessoas preconceituosas como dona CEXY são amebas megalomaníacas e sem noção. Mal sabe ela que seus patrícios vieram em massa para o Brasil fugindo da fome e da pobreza no seu país, aqui forraram as barrigas e foram tratados com dignidade.

Não somos exemplos de desenvolvimento, mas tratamos bem as pessoas, sejam elas portuguesas ou africanas, americanas ou japonesas. Amizade, carinho, apreço, amor e respeito são sentimentos essenciais ao ser humano, virtudes que independem de riqueza material, cor da pele ou nacionalidade.

Livro de Fábio Mozart serve de homilia da missa em Mari


Pe. Jadiel

Na última quinta-feira (16) lancei o livro “Mari, Araçá e outras árvores do paraíso” na cidade de Mari. No domingo, o padre Jadiel fez sua pregação com base no livro que conta a história do lugar. O vigário recomendou que todos deveriam ler o livro. O padre foi generoso com nosso cordel, mas antes de tudo sinto-me gratificado por ter entrado pela porta da frente no processo histórico daquela comunidade e ajudado, de muitas maneiras, no desenvolvimento social e cultural da terra de João Peão e Caveirinha.

Soube também que vereadores marienses já estão discutindo a possibilidade de elaborar projeto de lei incluindo o livro “Mari, Araçá e outras árvores do paraíso” no currículo escolar da rede pública de ensino municipal. Quer maior glória do que isso?

Na verdade, Mari representou um momento importante no processo da minha formação pessoal como ser humano e como artista. Nos doze anos em que morei lá, criei rádio comunitária, jornal, grupo de teatro, associações de bairro, liga de futebol, partido político e, o mais importante, ornamentei meu caráter e mentalidade através da convivência com pessoas de alto gabarito moral, a exemplo dos professores Marizete Vieira, Edmilson Trindade e Ercílio Delgado, os quais exercem com paciência humanista e vigor cívico a tarefa de transmitir conhecimento, trabalho este que, encarado nesses termos, ultrapassa a própria missão de educadores.

A amizade e estimulante convivência com uns sujeitos malucos e sonhadores iguais a Neneu Batista, Jota Alves, Manoel Pedro, Severino do Bujão e tantos outros que comigo formaram na linha de frente das aventuras literárias, artísticas e sociais na terra de Adauto Paiva, tudo isso e mais um monte de gente que carinhosamente me acolheu em Mari, cuja amizade sempre renovada se expressa no acolhimento ao meu livro. Recordando com saudade dos amigos que já foram para o andar de cima, como o sempre lembrado Chapéu do Correio, o desportista Paulo da Sinuca e outros cujo convívio ensinou-me a dimensionar o meu papel como cidadão.

Não conheço pessoalmente o padre Jadiel. Seu respeito e apoio ao meu trabalho tem um significado especial, porque vai além da amizade. É uma pessoa que não tem laços afetivos comigo, mas se achou no dever de recomendar um livro meu aos seus fiéis, certamente porque viu naquela obra literária um tijolo para a construção da cidadania e amor próprio da população mariense. Abençoado é o povo que conhece sua história.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Lume pálido na luminosa escuridão


Vital Alves

Essa frase está no livro “História do cerco de Lisboa”, de José Saramago. Expressão poética que é lugar comum na obra do grande escritor português. Acho que ler esse cara foi meio que determinante na minha forma de ver a literatura, cinquenta anos depois de ter contato pela primeira vez com uma obra literária, que foi “Reinações de Narizinho”, do Monteiro Lobato.

Hoje minha cabeça de leitor já é um fruto maduro, depois de conhecer os livros de Saramago. Mas recomeçar é preciso. Sei que em algum lugar do mundo tem um homem ou uma mulher produzindo uma obra de arte “definitiva”. Um batalhão de compositores de música, por exemplo, trabalha em novas canções todos os dias. Perseguem o sonho da obra perfeita, do inusitado, da originalidade. Essas pérolas não surgem com facilidade nem são oferecidas ao grande público. A atual realidade do mundo da canção dá pena. É espantoso o crescimento da mediocridade, incentivado por uma indústria cultural interessada apenas no lucro fácil.

Na cidade de Itabaiana (PB), um grupo de pessoas comprometidas com a cultura fundou o Ponto de Cultura Cantiga de Ninar, tendo como meta principal incentivar a produção e o consumo de bens culturais. Cada um dos participantes comunga a tarefa de difundir nossos artistas e sua produção. Em busca desse objetivo, foi criado recentemente o Fórum Permanente de Artistas e Produtores Culturais da cidade.

Parecemos poderosos. E somos, na medida em que, do nada, já produzimos um programa de rádio, um jornal, dois documentários, uma peça teatral, uma feira de artesanato e dois livros. A partir do talento e dedicação do músico Vital Alves, já temos uma orquestra de violões formada por jovens que revelam sentimento artístico e amor pelo instrumento. Com essa rapaziada vamos formando um elo, juntando os artesãos, poetas como Antonio Costta e Orlando Otávio, atores do naipe e experiência de Fred Borges e Normando Reis e músicos da categoria do já citado Vital Alves.

Os encargos e prazeres de coordenar um troço desses só quem sabe sou eu. Agora mesmo faltou grana para tocar o Ponto de Cultura. Tive que desembolsar de minhas parcas economias o numerário para pagar as contas do mês. Mas vale a pena devido ao crescimento interior que se verifica no sujeito que se mete de corpo e alma numa aventura desse tipo. É algo assim como “lume pálido na luminosa escuridão”, gratificante na medida em que vemos surgir um compositor como Vital Alves, autor das músicas que vão lincadas no blog “Toca do leão”. Fazem parte do novo CD de Vital, a ser lançado brevemente. São canções dignas de constar no repertório de qualquer grande artista da música popular brasileira.

MÚSICAS: 1- De manhã
2- Dias de mágica
3- Tardes de nuvens
4- Mandacaru

AUTOR: Vital Alves

domingo, 19 de setembro de 2010

A cultura em Itabaiana


Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana em apresentação no Recife (A Peleja de Lampião com o Capeta)

Dr. Romualdo Palhano

Observando num sentido mais abrangente, percebe-se que no município de Itabaiana, os projetos culturais e as manifestações artísticas percorreram a seguinte trajetória: do início do século XX até pelo menos a década de 1960, essas manifestações, como música, poesia, artes plásticas, dança, teatro entre outras, giravam em torno da União de Artistas e Operários. Ainda na década de 1970, como sujeito social, tive oportunidade de vivenciar o quanto eram concorridos os bailes carnavalescos promovidos por aquela associação. Todavia, essa configuração muda a partir de meados da década de 1960, quando passam a ser lideradas por outra instituição, desta vez, o Ginásio Estadual de Itabaiana, cuja denominação foi mudada para Colégio Estadual de Itabaiana e depois Colégio Estadual Dr. Antonio Batista Santiago; já a partir de meados da década de 1970 essas manifestações artísticas e culturais passam a se concentrar no efetivo e consistente trabalho do GETI – Grupo Experimental de Teatro de Itabaiana.

Das terras de Itabaiana florescem grandes personalidades como Abelardo Jurema, que foi Ministro da Justiça no governo de João Goulart; Otto Cavalcanti, considerado na Europa como uma das melhores expressões da arte tridimensional; Pingolença, artista que marcou época em Itabaiana; Izaías Alves da Silva, “Mestre Záia”, escultor e caricaturista da maior qualidade, conhecido em todo o Brasil; Adeildo Vieira dos Santos, cantor e compositor renomado na Paraíba e no Brasil; Djanete de Lourdes Souza de Meneses, respeitada judoca, campeã várias vezes no seu esporte preferido; Manoel Lourenço da Silva, poeta repentista de São José dos Ramos, que abrilhantava as noites de Itabaiana e ficou muito conhecido como Manuel Xudu; Vladimir de Carvalho, cineasta e professor da Universidade de Brasília; Severino de Andrade Silva, poeta popular que ficou famoso com o pseudônimo de Zé da Luz; Bastos de Andrade, poeta popular e irmão de Zé da Luz; Severino Dias de Oliveira, o “Mestre Sivuca”, artista de fama internacional e grande compositor da música popular brasileira.

Na atualidade, o município continua preservando-se como símbolo e berço da cultura com o trabalho do poeta Fábio Mozart que publicou em 2007 o livro “História de Itabaiana em Versos e Algumas Crônicas Reais” e principalmente com a obra do poeta popular Jessier Quirino, que vem mantendo viva a tradição cultural do lugar.

Portanto há que considerar que Itabaiana é berço dessas pessoas alegres, dessa gente faceira e amável, que se destacaram e ainda se destacam no cenário local, estadual, nacional e internacional.

(Do livro TEATRO EM ITABAIANA – Da União dos Artistas ao GETI)

• O DIA EM QUE FÁBIO MOZART ME DEU O DELE E EU DEI O MEU A ELE


Fábio Mozart, o moço que aparece na foto ao lado do Tião Bonitão, é um dos melhores textos da Paraíba. Escritor esfomeado, toda semana faz um livro. E todos bem escritos, sucesso de bilheteria. Neste sábado pela manhã, em plena feira do Geisel, precisamente no Bar do Zezão, devidamente escoltado pelo fiel amigo Palhano, lá estava ele de livro novo propondo o troca troca que logo depois se verificou: ele me deu o dele e eu dei a ele o meu. Melhor dizendo, o livro dele veio pra mim e o meu pra ele, seu bando de maldosos, maledicentes, vavás da luz cheios de prosopopeias. Fábio Mozart garantiu-me que irá ao lançamento do meu livro, sexta vindoura, dia 24, no Sebo Cultural de Heriberto e, de canja, levará uma dupla de mulheres violeiras. Dá pra tu ou fica frouxo?

Do blog do Tião Lucena
www.blogdotiaolucena.com.br

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Noite de autógrafos em Mari




Eu autografando o livro para meu amigo Natan Epifânio (Acima, o prefeito Antonio Gomes faz as honras da casa e agradece pela publicação do meu livro sobre a história de sua cidade) Na primeira foto, o poeta itabaianense Sanderli Silva declama versos matutos.


Foi ontem (quinta-feira, 16) em Mari (PB). A Diretoria de Cultura do Município promoveu o lançamento do livro “Mari, Araçá e outras árvores do paraíso” como parte da programação de aniversário da cidade.

Fui com meu cinegrafista Jacinto Moreno, filmamos tudo. Cheguei no Salão Chico Mendes, agradeci as honrosas presenças de pessoas distintas e notáveis do lugar, entre elas Manoel do Bar, Joca da Barraca, João Peão, professoras Anunciada Dias, Marizete Vieira, Ozaneide Vicente e Dirinha, prefeito Antonio Gomes, ex-prefeito Marcos Martins, ex-vereador Genival Monteiro, radialista Assis Firmino, Romeu do Bar (notar que já são três donos de bar, prestigiando a presença do antigo cliente), advogado Augusto, Jason Careca (sósia de Zé Serra), poeta Zé Xavier, Zé Martins do Sindicato, locutor Natan Epifânio que veio de São Paulo especialmente para a festa, radialista Silvano Silva, Severino Batista da Rádio Comunitária Araçá, Joseilton e Jean Monteiro.

Instado a falar, disse em poucas palavras que acreditava estar contribuindo de alguma forma com a memória desta bela cidade e seu povo hospitaleiro. E também que esse livro resgata histórias de lutas do povo sofredor, dos camponeses que escreveram belas páginas de heroísmo por um Brasil diferente, retratando a figura de Biu Pacatuba, um líder das Ligas Camponesas que mexeu com as estruturas fundiárias, políticas e sociais dessa região de Sapé e Mari nas décadas de 60/70.

Depois teve o momento cultural com o declamador Sanderli Silva e o rabequeiro Mestre Severino, finalizando com coquetel que os pernósticos chamam de Cocktail.

Toda essa festa foi comandada pelo compadre Neneu Batista, Diretor de Cultura do Município, a quem agradeço pela hospitalidade e zelo na construção do evento.

A filha de Biu Pacatuba, Maria Helena Malheiros, também esteve no lançamento do livro, onde prestou seu depoimento dizendo que tinha raízes na cidade de Mari e agradecendo a todos pelo resgate da memória do seu genitor.

Como foi uma festa promovida pela banda A, a banda B não compareceu. Todos sabem que no interior convivem duas bandas: uma na situação e outra na oposição. Lamentei as ausências de figuras como Adnaldo Pontes e outras personalidades retratadas no meu livro. Não há como escrever um livro (sério) sobre Mari sem destacar a atuação desses homens e mulheres que de uma forma ou de outra ajudaram a construir esse Município que comemora aniversário em 20 de setembro.

Faz de conta que estiveram lá todos os meus parceiros, artistas feito Beba do Violão, bebinhos do naipe de Fofão que já se foi, raparigas, pessoas do povão, cantadores repentistas iguais a Zé Hermínio, humoristas com a cara de Chapéu do Correio e tantas outras figuras que comigo, de uma forma ou de outra, combateram o bom combate contra os “três assassinos” citados por Fernando Pessoa: a ignorância, o fanatismo e a tirania.

Nunca mais...


Era o meu jeito. Não sabia fazer amizades, sempre arisco. Com vinte anos, saí de minha cidadezinha para o Norte do Brasil, atravessando o país a pé, de carona, caminhão, trem, ônibus, navio. Vendia sapatos de couro cru e bolsas de agave. Um dos poucos amigos que fiz na viagem, Napoleão, negro atarracado vindo do Maranhão para comprar uma câmera fotográfica Polaroid na zona franca de Manaus. Sonhava ganhar a vida difícil com a máquina de fotografia instantânea.

No porto de Santarém, Pará, carregamos o porão de um navio gaiola com pesados fardos de peixe cru para ganhar passagem de terceira classe para Manaus. No fim do dia, meu pescoço parece que havia afundado, e o cheiro de peixe, um fedor de xexéu-do-mangue, ficou entranhado na alma. Jurei que jamais comeria peixe. Napoleão não só comeu um tambaqui assado como disse que voltaria a Santarém para visitar, desta vez como turista, com a Polaroid a tiracolo.

Anos depois, voltei a comer peixe. Napoleão deve ter retornado a Santarém. Eu, nunca mais...

Namorava com a mocinha e a irmã da mocinha. As duas de rosto tranquilo, uma morena e outra loira, estudavam na mesma classe que eu. A loira sabia do namoro duplo. Traía a irmã com a tranquilidade inocente e sem culpa própria dos seus 16 anos.

Um dia, a morena nos pegou aos amassos. A macieza de seda de sua pele ficou da cor do algodão, mais pálida do que de costume. Nada exprimiu no momento do flagrante. Das brumas da memória, lembro que tentei discutir o assunto. “Não vale a pela. Talvez um dia a gente se encontre de novo, mas agora não dá”, disse a morena.

A loira, como era seu relativo direito, tentou se apossar da parte que cabia à morena. Algum tempo depois, a morena se findava, vítima de câncer no sangue. A loira continuou na escola, namorando os meninos e esquecendo a irmã descorada e fraca. Eu, nunca mais...


A fome apertava comigo nas ruas de Belém do Pará, em 1975. Sem vender as bolsas de agave, por um erro de estratégia empresarial, não arrumava numerário para comer. Explico: pensava que estaria trabalhando com um produto diferente, mas a região conhecia a juta, mais barata e mais resistente do que o agave. Resultado: produto boiando e fome apertando.

Foi quando encontrei a praça/feira dos mochileiros. Deram-me sopa e cigarros. Uma bela mulata de Pernambuco ensinou truques para sobreviver naquela cidade desconhecida. Contra os meus hábitos, me socializei com todo mundo. Aprendi que viajar é evoluir. A mulata tornou-se basicamente uma mochileira profissional. Eu, nunca mais...

No ano de 1988, fundei o Partido dos Trabalhadores na cidade de Mari. Coube em sorte conhecer pessoas iluminadas, gente simples, mas com um não sei quê de nobre e em alto grau de humanidade. Uma dessas pessoas era dona Benedita Luiza, senhora de sessenta anos que dedicou sua vida a servir aos mais necessitados. Morreu de câncer no seio.

Algumas dessas pessoas continuaram a fazer política, umas tomando rumos partidários diversos, outras ingressando na luta dos sem-terra. Depois da morte de dona Benedita, foi como uma senha para o partido perder as qualidades primitivas de companheirismo, dedicação ao próximo e real interesse em mudanças. Determinadas figuras ficaram na sigla por interesse pessoal, outros, bem poucos, ainda com a fé comovente da velhinha de Taubaté. De outros se diz que foram envolvidos em projetos político-partidários por ofício e meio de vida. Eu, nunca mais...

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Uma alma lavada e outra chateada


Recebo mensagem do itabaianense José Ricardo Oliveira, radicado no Recife:

“Venho agradecer ao nobre colega essas historias belíssimas que me são enviadas. Antes de sair para a guerra do dia-a-dia leio suas crônicas e me sinto criança, saio com a cabeça aberta e a alma lavada e vou como
se estivesse indo para o Colégio Estadual de Itabaiana encontrar-me com os amigos da
terrinha. Muito obrigado”.


A minha leitora Fatita Vieira reclama:

“Acho que não quer que apareçam no seu blog comentários ruins ou até agressões ao que você escreve, porque pode ter alguém que não goste do que escreve e queira soltar os cachorros, por isso modera os comentários.

Andei lendo o Blog do Dércio e nele vi que os comentários são livres, sem moderação. Atualmente parece que estão suspensos por causa da lei eleitoral. Abaixo, em vermelho, segue um que eu peguei do blog dele, nos quais soltam os cachorros, mas tá tudo lá publicado.


por gilson carlos gouveia da silva, 07.04.2010 - 16h10
homi saia deste site que tem pessoas honestas e bem informadas, saia, você é desinformado demais e babão.


Muito honestamente e sem açodamento, lhe digo, Fábio, que acho uma coisa totalmente fora de propósito uma pessoa como você, que prega a liberdade de expressão para si (e olhe como prega!!!), não dar essa mesma liberdade para as pessoas que lêem seu blog e deixam comentários. Tenho certeza de que muito mais pessoas deixam comentários lá, mas você não publica. O motivo? Só você sabe”.


Dona Fatita, esse medo de não ser aceito é um temor antigo que mora numa casa escura onde o diabo cumpre expediente, faz esquina com os recantos mais sombrios da imaginação.

Falo do ponto de vista de um sujeito extremamente tímido, vencendo muitas dificuldades já na meia idade para encarar as relações sociais. O crivo do outro é uma espada afiada no coração do sujeito acanhado e debilitado psicologicamente.

Portanto, se depender de mim, prefiro que não me desnudem, mesmo que falem a verdade. No camarada desembaraçado, a crítica reforça a fé própria. Para nós, os tímidos, tira completamente a auto-estima.

Peço desculpas por não publicar comentários que me constrangem. Mesmo sabendo que, muitas vezes, criticar é talvez um dos atos mais puros de amor e compaixão na medida em que mostramos ao outro a possibilidade de um novo caminho.

O que nós fizemos para sermos ouvidos?


Um dia uma moça de Mari me encontrou na rodoviária e perguntou:

-- Oi, tudo bem Mozart?

E eu:

-- Tá não.

Ela me olhou com cara de melindrada e nunca mais falou comigo. Não sei o que pensou na hora, já que esperava uma resposta padrão tipo: “tudo bem, e você?”

Só que não tá tudo bem e naquele dia justamente eu não estava disposto a mentir, só isso. O cara numa de dar dó e tem que dizer que anda tudo bem...

O que eu quero falar mesmo é de comunicação, mas de outra forma. Minha geração viveu uma época de repressão que todo mundo sabe. Era pauleira mesmo, sem saída. Panela de pressão prestes a explodir, e pipocou mesmo na cara da juventude que saiu para a luta armada e se deu mal.

Mas a gente tinha o que dizer e sempre arrumava um jeito. Meu grupo fazia teatro e jornal.

Hoje, o que se faz para que nos ouçam? Quais os canais de comunicação da sociedade? Na era da revolução tecnológica, a rapaziada descobriu a facilidade de ter um computador em casa, pode facilmente gravar seu CD, montar sua home page, instalar sua rádio web. E o que é que se vê? Alienação e mais alienação.

Tirando os grupos de hip hop, alguns que sobraram sem pensar em fazer sucesso e ganhar muita grana, e os caras nas trincheiras de rádios comunitárias autênticas e raríssimas, nada se ouve. É um silêncio em estado bruto, abafado pela música ruim e pela TV medíocre.

“Ideologia, eu quero uma pra viver”, berrava Cazuza. Um disco falhado que repete, repete, repete, repete...

Li num blog e acho que vale a pena citar: “a geração atual, massacrada pela velocidade das informações derivadas da massificação da internet e telefone celular, encontra dificuldades em filtrar semicultura e obter conhecimento de qualidade, pois toda a facilidade obtida pelo “meio” acabou deixando-os mais preguiçosos e acríticos à realidade que nos cerca.” (Alan Tavares).

Pensando e repensando, percebo que a geração atual se ressente de criatividade e rebeldia. Sem capacidade criadora não se muda a realidade. Como diz Roberto Juarroz, poeta argentino: “La realidad para ser necesita la imaginación”,

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

História de circo


O circo preparou-se para funcionar no meio do terreno baldio, espalhando seus trastes, madeiros e cores pálidas, desgarrados gatos pingados e malas misteriosas, junto com trouxas de roupas grotescas esperando a noite do destino. Os meninos cercavam a jaula da fera do Gran Circo Central, um gato maracajá assustado. Pela janela do camarim feito com madeiras salvadas da última enchente do rio, o palhaço Pingolenço sente cair em cima do seu pensar uma imensa responsabilidade quando vê chegar o delegado acompanhado do cabo Furico. Iluminado pela luz fraca do camarim, Pingolenço reflete sobre aquele sonho. Foram 88 dias de preparação para estrear o circo, o tempo de uma gestação.

O delegado entrou no cubículo.

-- Pingolenço, hoje eu venho ver seu circo. Se tiver partes impróprias para as famílias, mando fechar o circo e prendo o dono por uma semana, sendo o preso forçado a consertar a latrina da cadeia e pintar a delegacia.

Fique registrado que esse Pingolenço era o que se chama de “homem dos sete instrumentos”. Sabia pintar, consertar engenhocas mecânicas, tocar bombardino, ler partitura, construir edifícios e fazer palhaçadas na feira.

Se quer saber, Pingolenço não era muito simpático ao delegado. O palhaço era um homem muito insolente, desrespeitoso em atos e palavras com a sociedade e as autoridades, chegado a fazer cenas burlescas para ridicularizar a honra militar, civil e eclesiástica.

-- Pode deixar, seu delegado. Meu circo é muito rigoroso com a moral pública e privada. Nosso espetáculo é para adultos e crianças de todas as idades.
Noitinha, as pessoas começam a chegar. Trazem suas cadeiras e tamboretes, que o Gran Circo Central não dispõe desses luxos de cadeiras, só uma pouco estável arquibancada. De repente, um rumor vago de chuva, pingos começam a cair na inaudita ideia de Pingolenço. Jamais alguém montou um circo na cidadezinha de Itabaiana. Na primeira noite, a chuva irrompeu das cinco portas do céu naquele outubro tão seco. Os vinte e seis pagantes abrigaram-se sob a arquibancada. Os meninos não arredaram pé do pé da empanada encardida. Entre esses moleques, Luiz de dona Biu, por questão de tática se posicionou por trás do picadeiro, de onde via o mestre de cerimônia com seu chapéu caprichado e guarda-chuva furado anunciar o início da função “porque o espetáculo não pode parar”. Luiz de dona Biu reconheceu o cantor Cardoso, atentou na formosura da cançoneta executada com uma voz fanhosa por Maria da Garrafa, calculou o salto mortal do Pingolenço transformado em homem elástico e derreteu-se com a magia do Mister Salvatore, que era o mesmo Pingolenço vivendo outra identidade circense.

A chuva só escasseou no fim da função. Até o delegado segurou sua posição. Que pode uma simples autoridade diante da beleza do circo, pensou. Desistiu de prender Pingolenço. “Eu errei a vocação, devia ter sido artista de circo”, reflete o cabo Furico, molhado até a alma, ainda sentindo coceira na garganta para gargalhar com as presepadas do palhaço Pingolenço, segurando a alegria, sem força de ânimo para enfrentar o delegado, os problemas e as dificuldades de viver.

-- O senhor é um humorista de finíssimo espírito – disse o escrivão, apertando a mão de Pingolenço. E ele, humilde:

-- Podia ser melhor, se não fosse a chuva.

Luiz de dona Biu voltou para casa pensando na bailarina, no acrobata e no mágico. Pelas frestas do barracão onde morava, caía uma goteira em cima da lamparina de carbureto. Não dormiu. No outro dia, foi ajudar Pingolenço a consertar a lona desbotada e frouxa que circulava o picadeiro.

-- Seu Pingolenço, eu quero ser artista de circo.

Não, não podia viajar com o circo, mesmo porque o Gran Circo Central estava impossibilitado de sair de Itabaiana. Falta transporte, falta dinheiro para embarcar no trem.

-- Fique por aí, ajudando. Depois eu ensino uns truques.

O rapaz aprendeu rapidamente. Um dia sentou no batente da casa e chorou. Depois, enxugou os olhos e, sem olhar para trás, embarcou no “bacurau” das nove horas para o Recife. Cinquenta e cinco anos depois voltou a Itabaiana. Sua mãe já era morta. Ele transformou-se no grande ilusionista Mister Kaltos, artista internacional dos maiores circos do Brasil e América do Sul.

O Mister Kaltos extraía fantasias da infância e convertia homens duros em garotos emocionados com sua magia. Nesses instantes, o próprio Mister Kaltos virava de novo o Luiz de dona Biu, olhando comovido pelas frestas da empanada esfrangalhada do Gran Circo Central, tentando apanhar o fio de uma suspeita de que aquele era seu mundo.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Madame Preciosa se inspira em Vovó Neuza, uma blogueira de 80 anos


Ela tem 80 anos e não gosta desse negócio de melhor idade. Neuza Guerreiro de Carvalho é paulista, saudável, magrinha e ativa. Cuida de um blog na internet onde fala de cultura e de amizades. “Fico muito brava com isso de terceira idade. Não me chamo velha, não estou na Terceira Idade – a vida não se conta pelo número de anos vividos; não estou na Melhor/idade – porque podemos encontrar coisas boas em qualquer etapa da vida; não gosto de Feliz/idade porque soa artificial. Abomino todos esses nomes inventados. Mas Esther Alves Martirani propôs Longev/idade, Divers/idade, Oportun/idade e gostei. Na verdade me agradou mais a definição dada por um ex-reitor da USP, Jacques Marcovitch que chamou a nós de idade da “Juventude Acumulada”.

“Tenho um carro de 14 anos, mas é uma questão de auto estima. Sinto-me mais gente quando dirijo, quando tenho autonomia, mesmo que não faça grande uso dele. Desloco-me muito bem de ônibus e metrô. Não tenho preguiça de andar e por isso vou a qualquer lugar”, continua Neuza.

Ela gosta de música, literatura e artes visuais. Gosta de flores, por do sol, chuva, de certo perfume do qual alguém gostava, um vinho para acompanhar uma conversa, um chopinho em um fim de tarde quente. Não gosta de jiló, de futebol, TV aos domingos e conversa fiada. Adora estes versos de Machado de Assis que sempre declama:

Estou naquela idade inquieta e duvidosa
que é um fim de tarde
e começa a anoitecer.

Madame Preciosa garante que é ainda jovem, ostentando toda glória de uma mulher em sua plena forma mental e espiritual. Sua bela silhueta já dá sinais de excesso de tecido adiposo, mas nada que fira sua dignidade de dama dos mistérios de cama e mesa, seja ela branca ou negra (a mesa). Mas quer ser como Neuza no chamado outono da vida. “Quero ser uma velhinha que, aos 80 anos, ainda tenha tesão pela vida e seus bons vícios”, declara a mais famosa vidente da Rua das Flores.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Eu na Rádio Comunitária Independente do Timbó



Juliana à frente dos microfones da Rádio Comunitária Independente do Timbó, entrevistando e sendo entrevistada

A equipe do documentário “Feminino Plural” esteve neste sábado (11) na comunidade do Timbó, em João Pessoa, fazendo entrevistas com o pessoal da Rádio Comunitária Independente. São 14 jovens, sendo sete rapazes e sete moças, divididos igualitariamente no gênero, mas unidos pela garra que só a juventude tem, acreditando na força da comunicação para melhorar a vida dos vizinhos, parentes e aderentes.

Eu, o cinegrafista Jacinto Moreno e o diretor Rodrigo Brandão fizemos imagens da comunidade, uma das mais pobres da capital paraibana. Lá, as pessoas sobrevivem com rendas precárias, nas formas de auxílio a desempregados e aposentadorias dos mais velhos. Sofrem pela ociosidade de muitos membros e pela insuficiência das transferências de renda. Muitas dessas comunidades, semelhante ao pessoal do Jardim Veneza, São Rafael e Timbó, experimentam novas formas de satisfazer suas necessidades básicas e busca de direitos de cidadania através de associações comandadas por elementos jovens, tendo a rádio comunitária como carro chefe dessas mobilizações.

Na comunidade São Rafael, onde estivemos também filmando para o documentário, a associação que gerencia a rádio Voz Popular já instalou até uma padaria comunitária. Sempre com jovens à frente das lutas.

Na Rádio Comunitária Independente do Timbó, as mulheres comandam o show. Juliana e Edjane são as grandes lideranças. Com muito esforço, chegaram à universidade e fazem curso de comunicação para melhor desempenhar o papel de animadoras da cultura e do social em sua comunidade. A rádio é estratégica: com ela, mobilizam, anunciam as novidades, chamam para as tarefas, propagam a boa música e quebram o círculo vicioso da alienação, desmotivação e o deplorável mergulho nas drogas, lícitas ou ilícitas.

O Governo Federal, através da Anatel, fechou a rádio. O Ministério Público ameaça com pesadas multas. Centenas de moradores se lastimam porque sua rádio fechou. É uma das poucas intervenções governamentais na comunidade. No sábado em que estivemos lá, testemunhamos uma rara presença estatal, ou paraestatal, se assim podemos dizer: cabos eleitorais do atual governador pedindo votos e pregando retratos do candidato.

domingo, 12 de setembro de 2010

Mais um de Saramago


O poeta Antonio Costta debochadamente me indica para o Prêmio Nobel de Literatura. Troçar e escarnecer do próximo não é pecado, só brincadeira mesmo, portanto está o nosso irmão Costta perdoado, até porque me emprestou o livro “História do cerco de Lisboa”, de José Saramago, o quarto do mestre português que leio este ano. Saramago foi o único escritor em língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de literatura em 1998.

Ler Saramago é tomar aplicações intravenosas de forma e conteúdo literário do mais alto valor e criatividade. O cara escreve sem pontuação, com uma expressividade diferente e fascinante. A língua portuguesa foge dos limites à base de uma inventividade e um discurso simplesmente extraordinário e arrebatador. E o cara é um humanista e inflexível censor da sociedade moderna.

Recomendo.

Sim, o Antonio Costta ainda é da minha família, só que do ramo nobre, com T dobrado. O exuberante chão de Pilar criou esse poeta e Itabaiana acabou de inventar. Tão impregnado do cheiro da terra de José Lins do Rego, ainda não foi plenamente reconhecido em seu berço natural.

sábado, 11 de setembro de 2010

Piadas de Biu


Leitor do blog cobra novas anedotas com o famoso Biu Penca Preta. Recorro à memória do compadre Ameba para renovar o estoque. Estes continhos saíram da cachola do Ameba, atribuídos a Biu. Vejamos:

Recompensa

No cinema Ideal, ao terminar a sessão, alguém grita:

-- Senhoras e senhores, perdi minha carteira com mil cruzeiros. Ofereço cem cruzeiros a quem encontrar.

Lá do fundo, Biu também grita:

-- Eu ofereço duzentos!


No confessionário

Biu entra no confessionário, cumprimenta o padre e conta a seguinte história:

-- Seu padre, ontem comi uma menina de 18 anos, coisa mais linda do mundo!

O padre pergunta:

-- E o senhor está arrependido do seu pecado?

-- Que pecado?

O padre, perplexo, repreende aquele fiel com bafo de cachaça:

-- Que espécie de católico é o senhor?

-- Católico, eu? Sou ateu, seu padre!

-- E por que veio aqui me contar essa história?

-- Tou contando pra todo mundo...


No comício

Candidato num comício eleitoral em Itabaiana:

- Se eu for eleito, garanto que só se trabalhará um dia por mês!

E Biu:

- Ah, é? E férias, tem não?

Casal perfeito

A mulher de Biu:

-- Você já percebeu como vive o casal que mora ai em frente? Parecem dois namorados! Todos os dias quando chega em casa, ele traz flores para ela, abraça-a e os dois se beijam apaixonadamente. Porque você não faz o mesmo?

Biu, com a cara meio cínica:

- Mas…. querida…eu mal conheço essa mulher!

Hoje tem RESENHA CULTURAL na Rádio Rainha de Itabaiana


Orlando Otávio e Fábio Mozart no programa Resenha Cultural

Gravamos o programa que vai ser levado ao ar hoje, 11 de setembro às 15h30, pelas ondas da Rádio Comunitária Rainha FM de Itabaiana(PB), na frequência 87,9 MHZ, e na internet pelo sítio: www.radio87rainhafm.com

No programa de hoje a gente leva um papo com o poeta e cantor Orlando Otávio, cuja música “Forró verdadeiro” toca na sessão “Música Popular Paraibana de Qualidade”, onde também canta Zorah Lira, outra artista de Itabaiana.

Na próxima segunda, dia 13 de setembro, você ouve o programa no blog do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar: www.pccn.wordpress.com

Um novo Messias?


Na Rua Camilo de Holanda, na Parahyba, colocaram uma placa que dá para refletir sobre a superestima patológica de si mesmo que algumas figuras públicas da Paraíba não fazem questão de esconder. Na dita placa está escrito que, ganhando a eleição, o candidato pretende “construir uma civilização decente e cristã”. Ao lado dessa frase, uma estrela de Davi, símbolo do judaísmo.

Possuirá o tal candidato a incumbência de construir uma civilização? O mundo se dividirá entre antes e depois desse político que tem a natureza peculiar de ser, além de grande estadista, um profeta messiânico? É uma afirmação ousada, não há dúvidas. Em si mesmo a mensagem da placa implica sempre um risco, o de ser alvo de deboche.

Instaurada nova civilização, abandonados os velhos padrões da antiga vida social coletiva, teremos então uma revolução no seu sentido de transformação radical. O que propõe o candidato é estruturar a sociedade conforme os preceitos cristãos, misturando dogmas judaicos, o que em si é uma salada indigesta. Será uma civilização emanada de Deus e exercida por seu representante na terra, o dito candidato?

Para o bem e para o mal, religião e política sempre andaram de mãos dadas, uma intrincada na outra. Desde que se inventou a ideia do Princípio Supremo, sempre tivemos sujeitos carismáticos querendo empunhar o poder político do Estado em nome das religiões. Insinua-se que o tal candidato é tão ciente de suas extraordinárias qualidades pessoais que chega a ter a presunção de que só ele é capaz de salvar a Paraíba, quiçá o Brasil. Eu escrevi outro dia que os seguidores do candidato formam uma espécie de seita, mas nem imaginava que a coisa chegasse a tanto.

E se ele pretende "construir uma civilização decente e cristã", está afirmando que a nossa civilização é indecente.
Aquietem-se e recebam com serenidade o vaticínio das pesquisas, povos escolhidos! No pináculo do esplendor, o venerável cuidará para que tudo siga seu curso natural.

Não, o candidato não é ateu. Ele acredita em Deus, isto é, nele mesmo.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Zorah Lira canta no RESENHA CULTURAL deste sábado


A partir das 15h30 deste sábado, 11 de setembro, na Rádio Comunitária Rainha Fm de Itabaiana(PB), programa RESENHA CULTURAL, do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar.

Nesta edição, a cantora e compositora itabaianense Zorah Lira estará cantando uma de suas músicas românticas no quadro MÚSICA POPULAR PARAIBANA DE QUALIDADE, onde também comparece o cantor, compositor e poeta Orlando Otávio, este batendo um papo ao vivo com os apresentadores Clévia Paz e Fábio Mozart.

Na segunda-feira o programa pode ser acessado no blog do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar: www.pccn.wordpress.com

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Vladimir Carvalho testemunhou o espetáculo de Pingolenço na feira de Itabaiana


Caro amigo Fábio Mozart,

Você é o tipo do homem necessário nessa terra que é nossa, do coração. Comovi-me com a sua garimpagem encontrando essa jovem poeta inédita. Que beleza! No seu blog descobri que há esse livro sobre o velho Pingolenço, que conheci no meu tempo de menino, em plena atividade e por quem tenho, além da admiração, uma enorme curiosidade. Como faço para conseguir esse precioso documento?

Grande abraço,
Vladimir Carvalho

Brasília/DF

VLADIMIR: Na verdade, o livro de José Augusto de Brito oferece poucas referências sobre Pingolenço, apesar do título da obra. O que sei dessa personagem foi-me contado por meu pai, jornalista Arnaud Costa, atualmente residindo em Sapé, ainda lúcido aos 80 anos de idade.

Estou tentando escrever roteiro para um documentário sobre minha terra adotiva e pátria do meu pai, irmãos e filhos. O título provisório: “Itabaiana, terra de bamba”. Não sei se teremos condições técnicas para inserir trechos de ficção, mas se for possível certamente Pingolenço estará no filme, fazendo graça no meio da rua e fazendo justiça entre os desvalidos. Se conseguir transpor os obstáculos e produzir tal documentário, vou logo adiantando que será dedicado ao Vladimir Carvalho, honra e glória da terra de Zé da Luz e Abelardo Jurema. No momento estamos em fase de captação de recursos via leis de incentivo à cultura.

Meu pai conta que Pingolenço morreu desvalido e humilhado. Foi no tempo da segunda guerra. Com a escassez de combustível, o óleo era muito valorizado. Vendia-se óleo combustível nas ruas de Itabaiana em uma carroça de boi. Pingolenço aparava as sobras que pingavam da torneira para queimar em seu candeeiro e foi por isso desmoralizado pelo dono. Seu coração não suportou o ultraje e parou.

Leia mais sobre Pingolenço em

http://fabiomozart.blogspot.com/2010/04/homem-dos-sete-instrumentos.html

Praça da Paz Celestial


Praça da Paz nos Bancários


Mozart,

Como você me incluiu na crônica - o que muito me honra - só posso lhe dar o meu testemunho daqui da Praça da Paz Celestial (o celestial é por minha conta e risco). Veja só, nós moradores daqui dos Bancários, conseguimos a duras penas, fazer um projeto de urbanização da praça. Trocamos com o Shopping Sul uma ruazinha que cortava o estacionamento deles e em troca, eles faziam a construção da pista de caminhadas da praça. O que foi realmente feito. Da PMJP, tinha ficado acertado a jardinagem, os bancos e alguns equipamentos. Isso só foi feito na gestão de Ricardo Coutinho. Só que na hora de colocar uma placa lá só apareceu o nome de Ricardo - o grande e magnânimo - benfeitor. Depois, pra fazer justiça, a placa desapareceu.

O danado mesmo é que fazer obras com o dinheiro da gente não vejo nenhum mérito. Só vejo obrigação. Mérito é ver os políticos fazerem alguma cosia com o dinheiro deles, ou seja, amealhado também da gente. Não conheço nenhuma obra feita na Paraíba com recursos próprios do ocupante de cargo público. DESCONHEÇO. MAS AQUI, ELES FAZEM COM O DINHEIRO DA GENTE, COLOCA A PLACA COM O NOME DELES E AINDA ACHAM QUE A GENTE TEM obrigação DE VOTAR NELES. Eu acho um pouco demais. Fazer as obras é uma obrigação. Se queriam o cargo, que tal aceitar o encargo do cargo?

Um abraço,

Ivaldo Gomes

RESENHA CULTURAL no blog do Ponto de Cultura


Poeta Hugo Tavares fantasiado de brincante do Boi de Reis

Já está no blog do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar a gravação do programa Resenha Cultural do dia 4 de setembro, com entrevista da professora Telma Lopes.

No programa apresentamos a música “Canção do desterro”, de Fábio Mozart e Hugo Tavares, classificada na Mostra Sesc de Música Paraibana e inserida no CD da mostra.

O programa fala do filme “Feminino Plural”, que está sendo produzido com apoio da Sociedade Amigos da Rainha do Vale do Paraíba e Ponto de Cultura Cantiga de Ninar, com entrevista da atriz Das Dores Neta.

O programa vai ao ar todos os sábados às 15h30, pelas rádios comunitárias Rainha de Itabaiana e Zumbi dos Palmares (João Pessoa-PB).

www.pccn.wordpress.com

Praça recuperada e carimbada


Os moradores da minha comunidade do Jardim Glória agradecem ao prefeito de João Pessoa pela recuperação da Praça João XXIII, em Jaguaribe, em frente à minha casa. A pracinha ganhou flores e foram podadas as árvores, além de substituição dos cinco bancos. Tudo isso custou aos cofres da Prefeitura a importância de R$ 12.772,29, pagos à empresa Maranata, ganhadora da concorrência.

Data vênia, ao usar a expressão “comunidade” para me referir ao Jardim Glória, antes de ferir suscetibilidades de algum morador classe média pretensioso e pedante, não foi minha intenção diminuir o status de ninguém. Porque se sabe que, hoje, emprega-se a palavra “comunidade” para se aludir aos conjuntos habitacionais precários e paupérrimos da periferia.

A meninada que jogava futebol na praça ficou sem o seu campinho, mas o visual ficou jóia para inspirar a calma e o sonho. No meu caso, faz também com que uma reflexão se apresente. Para tal meditação, convoco o observador político mais ácido da aldeia, meu compadre Ivaldo Gomes. Primeiro: tem sentido a Prefeitura podar algumas árvores, mudar uns bancos e plantar flores numa pracinha, depois erigir uma coluna de concreto com placa onde se lê os nomes do prefeito e secretários, em seguida convocar a bandinha e os assessores para o discurso e demais solenidades de inauguração? Não acha um tanto exagerado? O impessoalismo de que fala a Constituição, significa o quê? E ainda: se o prefeito Luciano Agra está apenas guardando o lugar de Ricardo Coutinho, para o caso do antigo alcaide perder a eleição e tentar voltar ao cargo de prefeito em 2012, por que essa veleidade para perpetuar seu nome no maior número de obras, botando placa até em restauração de batente de porta?

O poder robustece a deslealdade. Com o direito de deliberar, agir e mandar, o sujeito se acostuma e vai semeando ideias desaforadas no coração. É o que diz Madame Preciosa, entendida nesses negócios de disposições afetivas.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Carta de Madame Preciosa


O Leão em péssimas condições físicas aceita ajuda sobrenatural


Caro consulente:

Apesar da aparência de homem mal, saiba que existe um coração dentro de você (claro que sei, e por sinal o safado está com taquicardia), talvez perdido em algum lugar perto do pâncreas (já começou a provocação!).

Seu problema é muito simples de compreender e explicar. Você é um alguém que gosta de dormir e acordar com barulho de chuva, assíduo leitor de romances, tem paixão por poesia, aficionado por José Saramago, sustenta um caso de amor com sua terra e é apaixonado por teatro. O que lhe falta é voltar a ter uma incrível experiência sexual, porque entre as pernas de uma mulher, só boas emoções nos esperam (se essa conversa não for uma cantada eu cegue!).

Apesar de estar na menopausa (não tem quem diga), não existe até o presente momento qualquer indício de que esta experiente cartomante, intermediária entre os vivos e os mortos, venha a falhar na tarefa de levantar os descaídos (será que ela se refere ao meu “zé vermelho?”). Levante a cabeça e parta para o abraço. Não seja antipático e procure uma mulher que tenha o jeito, a denguice, o ziriguidum, o encanto e a sedução de uma dama misteriosa, enigmática e imponderável, a única que possui a fórmula encantatória para erguer serpentes descaídas (essas indiretas incomodam!).

Não, você não é uma anomalia da natureza. Tem seus predicados e a Madame Preciosa entende seu período de isolamento do mundo, que vai superar em algumas sessões de fisioterapia sexual aplicada (o que será isso?), mesmo porque estou doida para enfrentar o desafio de curar um Leão que já se considera tapete.

Meu artifício é a justificável confiança que tenho de que o universo conspira a meu favor. Portanto, aceite sem culpa e sem medo o tratamento aqui proposto, para o qual estou me preparando devidamente; mudei a cor da cortina e o formato da cama, desloquei os pneuzinhos da cintura e removi a cor, a atitude e o peso da vida (essa mulher é poeta!).

A vida passa e a gente nota que fez quase tudo. O mais importante ficou pra depois. Com a intensidade de uma experiência que não se repete. Lembre-se: quando coabitamos (essa é arcaica!) você não rodou meu lado B e não conhece a canção do deleite (esse negócio de leite já rendeu confusão!). Vai encarar?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Carta do Senhor Pombo


Nos últimos tempos, minha saúde está piormente em progressão. Semana passada fiz três exames, tomei antibióticos, antiinflamatórios e outros recursos digamos, alternativos, para aliviar minha enfermidade. Sem entrar em detalhes sobre meu incômodo, afirmo que sofro há mais de dez anos com um problema estranho que simplesmente não tem diagnóstico, e por não ter diagnóstico não tem tratamento, e por não ter tratamento, em princípio, não tem cura.

Quando em crise, esse problema de saúde provoca oscilações na área emocional. Digamos que fico perturbado e dando mostras de certa irritabilidade, com indevida sensibilidade física e psíquica. Daí que andei até sendo grosseiro com alguns compadres que interagiram neste blog, a quem rogo indulgência.

Um desses atingidos pelas turbulências emocionais do velho leão, o Senhor Pombo de Cabaceiras enviou a seguinte carta:

Desta vez, agradeço a você, Fábio, por defender os cabaceirenses. O comentário do Fernando é discriminatório e mostra a pequenez de certas pessoas que se acham superiores só porque moram em grandes centros. Você pode não concordar com determinadas políticas adotas no município, pode discordar da "´Roliúde Nordestina" (eu também discordo), mas ofender a todos por causa disso é na verdade vergonhoso. E ser verdureiro ou dono de mercearia não é vergonha pra ninguém, é uma profissão digna como outras tantas e não limita a capacidade intelectual das pessoas. Acho que o rapaz dos comentários infelizes deveria analisar melhor os próprios conceitos.

As suas desculpas foram aceitas, até porque compreendo que você não está a par dos acontecimentos em nosso município. Quem sabe nos veremos um dia pessoalmente e conversaremos a respeito.

Sobre seu post do dia da Pátria, parece que concordamos em mais um ponto.

Muita paz!

Júnior Valdemiro Pombo de Sousa – Cabaceiras/PB

Ô gente feia!


Desesperado porque brigou com a namorada e ela não acessa mais seu blog, rapaz constata que seu recanto de escrever besteiras na internet aponta aproximadamente zero leitores. “Talvez seja a hora de contratar um marqueteiro eleitoral”, pensa o carinha. “Afinal, o sujeito tem que ser um gênio para vender peixes azedos como Serra e Dilma. Ô gente feia!”.

Na Paraíba, os marqueteiros tentam vender um anão barrigudinho e um sujeito alto, magro e feio, entre outros bagulhos. Todos querendo passar imagem de sérios e competentes.

O Guia Eleitoral transformou a política numa piada. Para a próxima eleição, concordo em que o candidato do PMDB seja Cristóvão Tadeu e o PSDB disputa com o Márcio Tadeu ou, quem sabe, a Biuzinha. O PT vai de Jessier Quirino. Se é para fazer piada, deixemos isso para os profissionais.

No dia da Pátria, que ela morra!


Não engulo a ideia de patriotismo. “Pátria do homem é o mundo todo”, diz o anarquismo. Patriota pra mim é mulher dos peitos grandes. O nacionalismo é um câncer a corroer a humanidade.

Na Segunda Guerra Mundial, foi o nacionalismo alemão o criador dos piores horrores que o mundo já assistiu. O que é uma nação? Além de ficção política, a nação é opressiva e inútil. Em nome da ideia de nação, se cometem as piores barbaridades contra o ser humano.

Mário Vargas Llosa resume bem o que pensamos dos governos nacionais: “Se tivermos em conta o sangue que fez correr no decurso da história, o modo como contribuiu para alimentar os preconceitos, o racismo, a xenofobia e a falta de compreensão entre os povos e as culturas, o álibi que ofereceu ao autoritarismo, ao totalitarismo, ao colonialismo, aos genocídios religiosos e étnicos, a nação parece-me ser o exemplo privilegiado de uma imaginação maligna”.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Imortal paraibano nos honra com sua visita


Distinto Fábio Mozart:

A sociedade em qualquer lugar do mundo sempre foi e continuará sendo
hipócrita, o caso especifico da Rua do Carretel de Itabaiana não foi o
primeiro e não será o último enfrentado pela intolerância de certas
pessoas que se acham donos da última cocada preta. As putas como eram
chamadas num passado recente, hoje são denominadas de profissionais do
sexo e contribuintes de seus impostos diretos e indiretos, inclusive
contribuintes do INSS, de onde um dia, quando cansadas da labuta
diária, poderem requerer e ter uma aposentadoria mui indigna do que a
mesada mensal com as vendas de suas carnes aos homens sedentos de
amores negados nos silêncios dos lares infelizes e felizes apenas para
a sociedade hipócrita e preconceituosa de todos os tempos: passado,
presente e futuros.

Conheci o escritor José Augusto de Brito, ainda como Prefeito do
Pilar/PB, depois o reconheci na Academia Paraibana de Poesia, quando
de suas visitas àquela casa de cultura poética, onde também faço parte
como ocupante da cadeira 7 - Patrono: Carlos Dias Fernandes, desde a
década de 1980 do século XX, na realidade ele era um grande poeta e
escritor.

Um abraço do,
Francisco de Paula Melo Aguiar
Da Academia de Letras do Brasil

domingo, 5 de setembro de 2010

Pernambuco se vê nas três cores mágicas de um time



O Recife amanheceu pintado de vermelho, preto e branco, um mar tricolor parando a cidade neste domingo (5), oceano coral feito de paixão. Engarrafamento geral, buzinas, bandeiras e vozes enlouquecidas. O Santa Cruz jogaria no Arruda contra o fraco time do Guarany de Sobral pela quarta divisão do futebol brasileiro.

Em João Pessoa, o tricolor fanático Gilberto Júnior é quem narra sua aflição, ouvindo o jogo pela rádio Jornal do Comércio: “cara, quando o Guarany de Sobral fez 2X0 eu chorei involuntariamente e recebi telefonema de mais dois doidos desesperados”. Ele quase teve um treco. “Eu tremia quando os arre-éguas fizeram dois a zero”. Ele e os 51 mil torcedores que foram ao estádio do Arruda, segundo as contas da diretoria que deve 10% da renda à Previdência Social. Foi muito mais do que isso, e assim mesmo, somando as 4 divisões, o Santa tem a maior média de público, seguido do Fluminense.

E segue Gilberto narrando sua aflição: “30 minutos do primeiro tempo, perdíamos por 2X0, virou pra 3X2 e ainda na primeira etapa ampliou pra 4x2. Levou mais um e no final terminou o jogo em 4x3. Se eu fosse gato teria perdido cinco das sete vidas”.

O amor exaltado por esse time é um processo poético. Senão vejamos mais depoimento do Júnior: “O céu tava azul e o Santa jogou com o terceiro padrão que é um azul celeste”. É a transposição de um jogo de futebol para o plano mais elevado e comovente da poesia. E prossegue, ardentemente exagerado: “o Santa Cruz é um fenômeno, é a fome do povo Russo no início do século 20, é a coluna Durutti na resistência, é o povo palestino contra Israel. Até Lula reconheceu a força de nossa torcida, e no final do jogo, Tom Zé vestiu a gloriosa camisa tricolor e foi pro meio da praça da Sé se banhar nos instintos arrebatados de paixão da torcida da cobrinha”.

Para Gilberto e os demais tricolores, o Santa Cruz é o fio de esperança de uma grande parcela de pernambucanos.
“Representa tudo; vencer na vida, felicidade familiar, um bom domingo... Comparando com o maracatu de baque virado, eu diria que o Santa Cruz é a lança do caboclo: se partir a casa cai”, define Gilberto Júnior da cobra coral.

Eu sou adepto (como dizem os portugueses) do Clube Náutico Capibaribe, o timbu dos Aflitos, mas confesso que tenho inveja desse sentimento de paixão tão radical dos tricolores pernambucanos. É mais forte que o instinto de conservação. Tricolor é capaz de qualquer sacrifício para ver seu time jogar.

A vaidade e o orgulho de vestir a camisa de um time que está na 4ª divisão é um fenômeno psíquico complexo. A transposição desse orgulho para o plano de quase religião, nem Freud explica. Nenhum clube do Brasil se compara ao Santa Cruz no quesito fidelidade e amor de sua torcida.

Bajado retratava nos seus quadros o carnaval de Olinda, e sempre nas figurações aparecem nas ruas alguns torcedores do Santa. No Mercado Eufrásio Barbosa, no Varadouro em Olinda tem uns painéis do Bajado, reproduzindo no nível pictórico a essência de Pernambuco. O Santa Cruz está lá, talvez representando o verdadeiro espírito do pernambucano.