segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

COLUNA DE DAMIÃO RAMOS CAVALCANTI

A cultura da fila

        
Sem fila, a humanidade não anda, não sai do lugar e padece de competitivo empurra-empurra; é muita gente para passar, de uma só vez, pelo gargalho da garrafa; mesmo que se inverta: Troque-se a boca pelo fundo da garrafa; não, não precisa quebrar vidro, tampouco fila.  Os índios, na floresta,  caminhavam em fila para um apagar o rastro do outro,  evitando os inimigos descobrirem seu caminho; daí, "fila indiana".  Pelo nome "indiana" parece ser a Índia criadora desse costume, populosa quase como a China, então carente de filas. Por sua vez, os chineses  não cultivavam o uso da fila. Antes das Olimpíadas de Pequim (2008), treinaram para mostrar ao mundo que chino sabe esperar a sua vez; via-se muita gente entrando num ônibus sem fila; formavam multidão, mas, não, fila. A confusão vem ensinando-lhes tal necessidade.
       A França usa com seriedade esse costume, praticando o respeito à fila. Em Paris, ao chegar numa peixaria , não pergunte se tem truta; o peixeiro calado ficaria, e logo seu severo olhar e os em fileira repreenderiam: "Vá pra fila". Já o Brasil bate recorde de "furadores de fila", o que provém da mania obsessiva do "brasileiro querer ter vantagem em tudo", do prazer em passar na frente dos outros, justificando-se: "É rápido, é só isso..." Em várias ocasiões, pratica-se tal má educação; no banco , na padaria , na entrada do campo de futebol, também na Igreja e , sobretudo no trânsito interrompido, quando o "cara de pau" corta pelo acostamento, definindo o "furador de fila" como corrupto potencialmente  pronto a maiores corrupções. Tais desregrados só não cortam a fila daqueles que vão morrer...
          Mas, "prá tudo há exceção", há quem gentilmente ceda seu lugar, porém sem ir para trás da fila, ao lugar do beneficiado... Cito Waldiza, contemporânea de adolescência, que encontrei sozinha no caixa especial do supermercado, e,  gentilmente, depois de um rápido "como vai", cedeu-me o lugar:"Pode passar". Recusei: "É sua vez". Então ela se explicou: "Só uso esse Caixa, quando não há idoso"...
 

Damião Ramos Cavalcanti


domingo, 19 de fevereiro de 2017

POEMA DO DOMINGO


Anti-dogmático opressor
que no cotidiano da gente
tolhe a liberdade com pão e vinho
e canções grotescas
em nome de bandeiras
a-éticas e torpes.

Ensombreado julgador
que esculpe nos seus vis processos
a estátua venal da injustiça
com sua espada de lâmina faminta
por pele de negro e puta
estraçalhando o sonho
de um povo sem agasalho
que, domesticado, vira espantalho
de si mesmo.


F. Mozart

sábado, 18 de fevereiro de 2017

BLOCO 3 DO MULTIMISTURA


Onde se explica as origens do carnaval e os blocos das panelas inox continuam silenciosos. O bloco do PMDB bota pra f...
·       “PMDB é o câncer, o cólera, o tétano, o HIV e a sífilis do país”, vomita ouvinte.
·    Ricardo Coutinho imita D. Pedro I e recria o “Dia do Fico.”

·       Energisa mete o fio preto no consumidor e cria o “gato fantasma”.
MULTIMISTURA, BLOCO 3:


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

DOIS BLOCOS DO MULTIMISTURA


Diretamente do Ministério da Comunicação Alternativa, psicodélica e livre, entra no ar o anti-programa Multimistura.

GRAVAÇÃO NO RADIOTUBE DOS BLOCOS 1 E 2:

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017



Sonho de hipocondria
Nadar na vazante/bula
Até que a neurose engula
Um mar de epidemia.

Há dias não durmo com essa incerteza: o vagalume apaga e acende ou acende e apaga?
Madame Preciosa pegou seu primeiro namorado aos 11 anos. Nessa idade eu só pegava sarampo e catapora.
Justiça censura jornais O Globo e Folha de São Paulo em matéria sobre a mulher de Temer. Os jornais reclamam da censura. Lembrei de Millôr Fernandes: “a situação é de tamanha indignidade que até pessoas totalmente indignas já estão indignadas.”
O mesmo Millôr Fernandes foi censurado na TV Rio em 1962 por ter falado da mulher de Juscelino Kubitschek. “Dona Sara Kubitschek passou seis meses curtindo férias na Europa e quando regressou foi condecorada com a Ordem do Mérito do Trabalho”, disse Millôr no seu programa “Lições de um ignorante”. Isso antes da ditadura, imagina quando os milicos tomaram conta desse picadeiro...
Sexagenário, ainda não venci na vida. E outra coisa me preocupa: mortalidade infantil diminuiu muito, mas os velhos continuam morrendo no mesmo ritmo.
A igreja é a casa de Deus, entretanto é bom botar cadeado porque o Diabo é malandro experiente.
Brasileiro é livre como um taxi nesses tempos de Urbe.
A Justiça não aceita que você faça sua própria petição. Exige um advogado. Ou somos todos ignorantes ou o judiciário é um esquema corporativista excludente. Mais uma imoralidade do sistema.
“É uma pessoa tão humilde que chega a baixar a umidade relativa do ar”. (Sonsinho)
“Dominar o poder é pior do que ser fuzilado na guilhotina com uma corda no pescoço.” – General Figueiredo em 1982, dando uma de Sonsinho.
“Sou apenas um ginecologista amador.” (Ameba, o conquistador barato)
Na hora da crise, o que se come primeiro, o ovo ou a galinha?
Redator desimportante era impresso em corpo 6 no rodapé da página em branco.
“Com o perigo iminente da superpopulação, a própria natureza vai dar ganho de causa à causa dos homossexuais. Nu futuro, seremos todos gays.”  -  (Maciel Caju, com a mão na porta do armário)
Homossexualidade: libido orientada para canais fisiológicos não progenitivos.  




domingo, 12 de fevereiro de 2017

POEMA DO DOMINGO


Impressionista 


Uma ocasião, 
meu pai pintou a casa toda 
de alaranjado brilhante. 
Por muito tempo moramos numa casa, 
como ele mesmo dizia, 
constantemente amanhecendo. 
 


Adelia Prado

sábado, 11 de fevereiro de 2017

COLUNA DE DAMIÃO RAMOS CAVALCANTI

As máquinas querem nos substituir 

       
Em 1980, quando Marcos Augusto Trindade, o saudoso José Trigueiro do Valle e eu estivemos, dez dias, em Moscou, aproveitando o “bon marché” de uma excursão da “Jeunesse Communiste de France”,  esses grandes amigos admiraram, nas lojas moscovitas, lindas russas fazendo, com uma rapidez incrível, as contas dos clientes numa moldura retangular, com pequenas bolas de madeira, chamada de ábaco; no arame, faziam correr  essas bolinhas , ora multiplicando  ou dividindo, ora somando ou diminuindo.  Tal esquisita calculadora parecia obsoleta, mas, de espantosa eficiência; nada consumia, apenas ajudava exercitar o raciocínio daquelas moças. Tal invenção, dizem, ter-se-ia originado, na antiguidade, em diferentes países como a China, a Mesopotâmia; também sido usada pelos romanos e gregos para contas que não iam além dos dedos.
       Aqueles ábacos lembraram tabelas de madeira, na parede da sinuca do “seu” Adônis ou na do “seu” Jonas, em Itabaiana, onde inveterados do taco, como Capão, Barata, Galego, Gualberto, Dedé Duré, Porfírio, Valdo Enxuto, Zé Maroja e Machinho passavam feriados e dias úteis, ora somando, ora diminuindo pontos, conforme a reluzente cor da bola de marfim que caía na caçapa. Somar assim era fácil; diminuir, um brinquedo. Difícil  foi entendermos aquelas russas fazerem as quatro operações com tanta ligeireza.  Conferíamos o total, e era aquele mesmo, certo: Nenhum rubro a mais, nenhum kopek a menos.
       Aprendi aritmética elementar no Grupo Escolar de Pilar e no Colégio N.S. da Conceição de Itabaiana.  Ainda hoje, consigo fazer conta  e tirando “a prova dos nove fora”. Hoje, gente mais moça, formada, que aprendeu a calcular com máquina, nada faz; e se lhe faltam acessórios eletrônicos, a conta não sai. Já os ex-alunos da tradicional tabuada, apenas com lápis grafite, pintam miséria, como aquelas abacistas da Rússia. Já dizia Tenente Bispo, escrevendo álgebra na calçada da Igreja Matriz da cidade: “Quem só usa máquina desaprende a calcular”. Hoje, ele aprovaria eu dizendo: O "uso prá tudo" do computador é o desuso de nós mesmos. Aos poucos, tal monstrengo nos subutiliza, substituindo-nos até no namoro, quando não há sentimentos. Haverá máquinas no lugar de  uma humanidade de inábeis e de esquecidos, que noticiam os "três poderes constitucionais", em Brasília; porém, elas  não avaliam a perda desses valores, porque não hão sentimentos... 
 

Damião Ramos Cavalcanti